quarta-feira, 24 de fevereiro de 2016

Marcos, Rodrigo e a meritocracia.

Marcos, o mais rápido corredor, levou a medalha.
Rodrigo, com pernas mais curtas, bem que se esforçou mais do que João, mas ficou só com a prata.
Epa, alto lá! Rodrigo merecia o ouro de Marcos?
Não sei, fosse Rodrigo mais esperto, sendo baixinho, não teria entrado nessa de corrida. Mérito, que negocio estranho de medir.
Merece mais quem é mais apto ou merece mais quem mais se esforça?
Melhor: merece mais o mais esperto, que escolhe bem seus esforços! Rodrigo que nasceu baixinho, mas escolheu correr, ficou com a prata. Quem mandou ser burro?
Mas para escolher ser burro você já tem que ser burro antes, porque escolher ser burro é burrice. Se você era burro antes de escolher ser burro, então você não escolheu ser burro em primeiro lugar. Entendeu? Não? É burro também?
Calma, sem ofensas, senta aí! Ninguém escolhe ser burro, isso é uma coisa que acontece com a gente.
É isso: ser burro acontece. Com todos nós. Com uns mais do que com outros.
Se você é burro, a única coisa que merecia era ser mais inteligente. Então vem comigo que você vai passar de ano.
Rodrigo, que foi burro, quis correr mesmo sendo baixinho, só porque gosta.
Já Marcos não gosta de correr, mas corre bem pra caralho! Ganhou a medalha, mas passa os dias correndo sem gostar. Burro também.
Marcos, Rodrigo! Venham cá, já: tomem uma medalha para cada um. Cansei, não dá para brincar de meritocracia com vocês.
Meritocracia a gente tem que aplicar quando todos partem das mesmas condições. É isso: coloque todos nas mesmas condições e dê a partida. Todos alinhados no começo da pista até ouvirem o disparo da largada. Se você e eu partimos exatamente das mesmas condições, o que vai definir o resultado está dentro de nós – meritocracia!
Pensando bem, a gente não escolhe tudo que está dentro de nós, já viemos ao mundo com algumas coisas. Outras aprendemos com nossos pais, que não escolhemos. Outras absorvemos de nossa cultura, que não escolhemos também. Aiii meu cacete!!!!!!…
E agora? O que a gente realmente escolhe? Nada?
Quer dizer então que eu estou vagando na existência como um robô e que não decido uma maldita coisa na minha vida inteira?!
Já chega desse papo, não faz sentido, vou é dar uma mijada!
Ta aí: eu escolhi mijar. Ufa! Finalmente uma escolha: senti vontade de mijar e decidi ir.
Mas eu não decidi ter vontade. Será que eu decidi ir mijar ou foi só a minha bexiga me controlando como uma marionete?
Meu Deus, EU SOU UMA MARIONETE DA MINHA BEXIGA!
Como posso merecer algo, se nem decido o que eu faço?
Então não podem me responsabilizar também: vou sair daqui e matar mil! Eu juro! Vou sair na rua com uma faca e enfiar na barriga do primeiro que eu ver, pois sou eu um robô, não tinha escolha, o universo quis, a culpa não é minha, foi o destino!
Hunf!
Ok. Quem eu quero enganar?
Eu sou uma pessoa controlada, pacífica. Eu sou assim: impossível eu tomar uma decisão que eu não tomaria.
Ahá! Esse é o pulo do gato: eu escolhi ser assim! Eu poderia ter escolhido o caminho das trevas, mas eu escolhi a luz! Pronto: o meu mérito está nas escolhas que eu tomo por ser a pessoa que eu escolhi ser.
No fundo, fui eu quem escolhi tudo, pois escolhi ser o que sou, escolhi ser o tipo de pessoa que toma as decisões que eu tomo.
Quando foi mesmo que escolhi o que sou?
Acho que foi aos 5. Isso mesmo, aos 5 anos, eu me lembro. Foi aos 5 que decidi ser a pessoa que sou, uma pessoa de bem, uma pessoa honrada e linda. Foi uma sábia decisão.
Que garoto de 5 anos bonzinho eu era para decidir uma coisa dessas, né?
Não! Eu ja era bonzinho, droga! Para decidir ser uma pessoa de bem, você já tem que ser uma pessoa de bem antes.
Está certo: ser uma pessoa boa é como ser burro: acontece. Com alguns mais do que com outros.
Esse negócio de meritocracia está mesmo furado. Ficar julgando o que as pessoas merecem é um erro, pois cada ato de cada um é só uma consequência de tudo que este um aprendeu, de tudo que este um viveu e do jeito que este um nasceu.
Não há meritocracia, afinal, não há mérito.
Agora que superamos esse engano, podemos seguir em frente para construir um mundo onde damos às pessoas aquilo que elas precisam?
Sim?
Obrigado.

sábado, 6 de fevereiro de 2016

Não somos metade, então busque seu outro inteiro

"Amor é achar a sua outra metade da laranja, alguém que nos completa para a eternidade", essa frase poder ser facilmente achada, embora com variantes, em inúmeros poemas, prosas e até conversas casuais sobre amor. Não é difícil também achar seguidores desse conceito, caminhantes apaixonados pensando que seguem a formulá do amor eterno. Pobres pessoas, uma vida sendo metade, pensando achar sentindo em uma outra metade que talvez não venha.

Admitir à busca de sua "outra metade" é assumir que você não usa seu inteiro, é assumir que sua vida se resume a ser meio, até que ela apareça. Como então vive um ser desses se descobrir que as chances dessa "metade" que falta aparecer são pequenas? uma meia vida? Não tenho a imaginação tão fértil, mas acredito que não seria emociante ter uma meia-vida quando se pode viver plenamente.

Sobre a frase, é uma questão de individuo, minha dica? seja um inteiro, viva por inteiro, assuma responsabilidades por inteiro, divirta-se por inteiro, seja você por completo!

Mas e se aparecer alguém? e se por acaso, mesmo que por remota chance alguém desperte em você a sensação de amor eterno. Ora! de outro modo não poderia ser! viva o amor por inteiro, entregue-se por inteiro, como inteiro que você é!

E no primeiro sinal de metade do outro, no primeiro sinal de meia-vida, pule fora! seu inteiro, cedo ou tarde, sentira falta da metade que falta no outro!

Não de ouvidos aos que dizem que você deve ceder por amor, veja, essa afirmativa não deixa de ser verdade, mas não significa deixar de ser você. Significa ser inteiro e responsável de si suficiente para notar que sim, eu posso fazer, mas escolhi não o fazer. E pronto, atitude digna de condecorações de difícil compreensão de quem é metade, meio, semi vivo.

Por tanto, concluo que, não busque alguém que seja metade, não tente se completar em outro alguém, seja um inteiro, um ser humano completo, e busque alguém igualmente completo, alguém igualmente pleno, e quando acharem um ao outro, unam-se e ao invés de se completar, transbordem. Por que amigos, quando dois inteiros se juntam, é exatamente assim, duas vidas plenas, felizes e conscientes que transbordam juntos! ao invés de se completar.

Encarnação, Rodrigo P. da